sábado, 21 de março de 2009



O Pensamento da Noiva ▬ Paul Delvaux

sexta-feira, 6 de março de 2009

Carta ao Papa ▬ Antonin Artaud

O confessionário não é você, oh Papa, somos nós; entenda-nos e que
os católicos nos entendam.
Em nome da Pátria, em nome da Família, você promove a venda das
almas, a livre trituração dos corpos.
Temos, entre nós e nossas almas, suficientes caminhos para
percorrer, suficientes distâncias para que neles se interponham os
teus sacerdotes vacilantes e esse amontoado de doutrinas afoitas
das quais se nutrem todos os castrados do liberalismo mundial.
Teu Deus católico e cristão que, como todos os demais deuses,
concebeu todo o mal:
1º. Você o enfiou no bolso.
2º. Nada temos a fazer com teus cânones, índex, pecado,
confessionário, padralhada, nós pensamos em outra guerra, guerra
contra você, Papa, cachorro.
Aqui o espírito se confessa para o espírito.
De ponta a ponta do teu carnaval romano, o que triunfa é o ódio
sobre as verdades imediatas da alma, sobre estas chamas que
chegam a consumir o espírito. Não existem Deus, Bíblia. Evangelho;
não existem palavras que possam deter o espírito.
Nós não estamos no mundo, oh Papa confinado no mundo; nem a
terra nem Deus falam de você.
O mundo é o abismo da alma. Papa caquético. Papa alheio à alma,
deixe-nos nadar em nossos corpos, deixe nossas almas em nossas almas,
não precisamos do teu facão de claridades.

Ser ou Não Ser ▬ William Shakespeare

Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre
Em nosso espírito sofrer pedras e setas
Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja,
Ou insurgir-nos contra um mar de provocações
E em luta pôr-lhes fim?
Morrer.. dormir: não mais.
Dizer que rematamos com um sono a angústia
E as mil pelejas naturais-herança do homem:
Morrer para dormir... é uma consumação
Que bem merece e desejamos com fervor.
Dormir... Talvez sonhar: eis onde surge o obstáculo:
Pois quando livres do tumulto da existência,
No repouso da morte o sonho que tenhamos
Devem fazer-nos hesitar: eis a suspeita
Que impõe tão longa vida aos nossos infortúnios.
Quem sofreria os relhos e a irrisão do mundo,
O agravo do opressor, a afronta do orgulhoso,
Toda a lancinação do mal-prezado amor,
A insolência oficial, as dilações da lei,
Os doestos que dos nulos têm de suportar
O mérito paciente, quem o sofreria,
Quando alcançasse a mais perfeita quitação
Com a ponta de um punhal? Quem levaria fardos,
Gemendo e suando sob a vida fatigante,
Se o receio de alguma coisa após a morte,–
Essa região desconhecida cujas raias
Jamais viajante algum atravessou de volta –
Não nos pusesse a voar para outros, não sabidos?
O pensamento assim nos acovarda, e assim
É que se cobre a tez normal da decisão
Com o tom pálido e enfermo da melancolia;
E desde que nos prendam tais cogitações,
Empresas de alto escopo e que bem alto planam
Desviam-se de rumo e cessam até mesmo
De se chamar ação.

É Presico Estar Sempre Embriagado ▬ Charles Baudelaire

É preciso estar sempre embriagado.
Eis aí tudo: é a única questão.
Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo que rompe os vossos ombros e vos inclina para o chão, é preciso embriagar-vos sem trégua.Mas de quê?
De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa maneira.
Mas embriagai-vos.
E se, alguma vez, nos degraus de um palácio, sobre a grama verde de um precipício, na solidão morna do vosso quarto, vós acordardes, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que foge, a tudo que geme, a tudo que anda, a tudo que canta, a tudo que fala, perguntai que horas são; e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio, responder-vos-ão: 'É hora de embriagar-vos!
Para não serdes os escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos: embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa maneira'.
O Grito ▬ Edvard Munch

quarta-feira, 4 de março de 2009

O Jardim Separado ▬ Jim Morrison

Estou farto de dúvidas
De viver à luz de um certo sul
Laços cruéis
Os servos têm o poder
Homens ignóbeis e as suas mulheres vulgares
Puxam cobertores vulgares sob
Os nossos marinheiros(e tu onde estás nesta hora escura,
A aparar a barba ou a beber uma margarita?)
Estou farto das caras soturnas
Que me olham das torres televisivas
Quero rosas nos canteiros do meu jardim, compreendido?
Bebés reais e rubis
Devem agora tomar o posto
Dos estranhos abortos na lama
Estes mutantes, pasto de sangue
Para a planta semeada
Estão à espere de nos arrastar até ao jardim separado
Sabes o quão pálida e excitantemente indesejada vem a morte numa hora estranha,
sem anunciar, imprevista
Como um hóspede inimigo que levamos para a cama
A morte faz anjos de todos nós e dá-nos asas
Onde tínhamos ombros macios como as garras dos corvos
Chega de dinheiro, chega de luxos
Este outro reino é de longe melhor
Até que a sua outra face mostre incesto
E a cega obediência e uma lei vegetal
Não irei aí
Prefiro uma festa de amigos
À grande família

terça-feira, 3 de março de 2009

Todas as cartas de amor ▬ Fernando Pessoa

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)